Senado e Receita Federal recorrem à Embrapii para formar servidores em IA
Duas das instituições federais que mais lidam com dados no Brasil vão mandar servidores de volta à sala de aula. O Senado Federal e a Receita Federal firmaram acordos com o Centro de Competência Embrapii em Tecnologias Imersivas, o Akcit, na Universidade Federal de Goiás (UFG), para capacitar servidores em inteligência artificial e tecnologias imersivas. A Embrapii anunciou as parcerias em 2 de outubro.
O plano prevê programas de pós-graduação e especialização em IA generativa, processamento de linguagem natural, engenharia de software e IA agêntica, com 500 vagas oferecidas pelo centro. A Embrapii ressalta que a meta vai além do uso de ferramentas prontas: os servidores devem aprender a criar e adaptar modelos e aplicações para as necessidades de cada instituição.
Os usos previstos são concretos. No Senado, o conhecimento pode apoiar a análise de documentos, a organização de informações legislativas, a pesquisa em bases de dados e ferramentas para o corpo técnico, além de facilitar o acesso da população a projetos de lei e debates. Na Receita, a formação pode melhorar a análise de dados tributários e aduaneiros, apontar inconsistências, automatizar tarefas repetitivas e reforçar a prevenção a fraudes. O presidente da Embrapii, Alvaro Prata, afirmou que formar servidores em tecnologias avançadas dá ao Estado mais capacidade para identificar problemas e desenvolver soluções próprias.
O que muda na prática
A infraestrutura por trás dos cursos é robusta para um laboratório universitário. O Laboratório Avançado de Tecnologias Imersivas do Akcit conta com um supercomputador NVIDIA DGX B200 com oito GPUs, parte de cerca de R$ 2,5 milhões em investimentos, e o centro está ligado ao Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG (Ceia). Empresas como Globo, Itaú Unibanco, WEG e Vivo já participam de sua associação tecnológica.
Para gestores federais, a iniciativa se encaixa em um esforço mais amplo de construir capacidade estatal em IA em vez de alugá-la. O AI4Brazil acompanhou como a EAF estuda um data center público e modular de IA para uso federal e como a ANPD monta um centro interno de IA. Servidores capacitados são a peça que falta para tornar esse tipo de infraestrutura útil.
A própria Embrapii aponta as ressalvas: usar IA em dados legislativos e tributários exige segurança, proteção de dados, transparência e supervisão humana. A fiscalização tributária é uma área especialmente sensível, em que alertas automatizados precisam continuar explicáveis e passíveis de contestação pelos contribuintes.
O que observar: quando começam as primeiras turmas, se outros ministérios vão aderir ao modelo do Akcit e se o Senado e a Receita vão divulgar as ferramentas de IA criadas por suas equipes. Quinhentas vagas não vão transformar sozinhas o funcionalismo federal, mas são um passo concreto rumo a um setor público que entende os sistemas que contrata.