Presidente da CVM, Otto Lobo diz que só se combate IA com IA na supervisão do mercado e pede mais recursos
O presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) quer a inteligência artificial no centro da supervisão do mercado, porque quem comete irregularidades já a utiliza. “Só se combate IA com IA”, disse Otto Lobo em evento promovido pela Anbima em 6 de novembro, citando uma frase que afirmou ter ouvido em uma viagem recente, segundo o Valor Econômico.
Lobo afirmou que a CVM já recebe informações sobre o uso de IA em tentativas de invasão de sistemas, inclusive por organizações que começam a empregar os chamados enxames de agentes, sistemas de IA que atuam de forma coordenada. Ele relatou também que participantes do mercado recorrem à tecnologia para redigir recursos administrativos dirigidos à autarquia. Para modernizar a supervisão, disse, é preciso uma nova estrutura capaz de processar o volume crescente de dados do mercado, mas a CVM ainda não recebeu os recursos necessários e conversa com outros órgãos públicos para viabilizar o investimento.
O regulador apresentou ao Ministério da Fazenda e ao Supremo Tribunal Federal (STF) a necessidade de contratar 1.200 funcionários nos próximos quatro anos. Sobre a tokenização de ativos, Lobo disse que a CVM precisa discutir riscos e benefícios das novas tecnologias sem enfraquecer as proteções ao investidor já existentes, e que informações preliminares indicam que as estruturas de investimento em tokens não foram diretamente afetadas pelos ataques recentes a plataformas de criptoativos. Ele também defendeu regras rápidas para os mercados preditivos, que, segundo ele, não devem ser confundidos com as plataformas de apostas esportivas.
O que muda na prática
As declarações de Lobo ecoam a própria migração do setor para uma automação supervisionada, como o Banco do Brasil liberando autonomia gradual para agentes de IA com governança embutida e a compra da NeoSpace pelo Itaú para criar seus próprios modelos de base. Se bancos e corretoras adotarem IA agêntica mais rápido do que a CVM consegue acompanhar, as lacunas de fiscalização aumentam; um regulador que não consegue ler os próprios dados em escala terá dificuldade para detectar manipulação coordenada ou documentos gerados por IA.
O que acompanhar: se Brasília vai financiar a estrutura de dados e o plano de contratações, como a CVM vai disciplinar o uso de IA por intermediários e se o marco para mercados preditivos chega antes de essas plataformas ganharem escala no Brasil.